ForesstGIS_topo_2027
Posted in

A ONU quer mudar o mapa-múndi. Mas a projeção de Mercator está realmente errada?

Em setembro de 2026, uma discussão que normalmente ficaria restrita a aulas de cartografia chegou à Assembleia-Geral das Nações Unidas. Por 164 votos a favor, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos, foi aprovada uma resolução incentivando o uso de mapas que representem de maneira mais fiel o tamanho relativo dos continentes.

A iniciativa, liderada pelo Togo em nome do grupo africano, tem como principal alvo a velha conhecida de quem trabalha com GIS: a projeção de Mercator.

A manchete fácil seria dizer que a ONU decidiu “corrigir o mapa-múndi”. Tecnicamente, porém, a história é bem mais interessante.

O problema não é que Mercator esteja “errada”

Todo mapa plano do mundo está errado de alguma maneira.

A Terra é aproximadamente esférica. Para colocá-la numa folha de papel ou numa tela plana é inevitável deformar alguma coisa: área, distância, direção, ângulo, forma — normalmente mais de uma delas.

Não existe uma projeção capaz de preservar tudo simultaneamente. A própria International Cartographic Association ressalta que não existe uma única projeção correta para todos os usos.

Mercator fez uma escolha muito específica.

Criada por Gerardus Mercator em 1569, sua projeção é conforme: preserva ângulos localmente. Isso é extremamente útil para navegação e explica boa parte de seu sucesso histórico.

O preço aparece quando tentamos comparar áreas.

Quanto mais nos afastamos do Equador, maior fica a distorção.

O exemplo clássico é quase absurdo quando percebemos a escala:

a Groenlândia parece aproximadamente do tamanho da África em muitos mapas Mercator, embora a África tenha cerca de 14 vezes a área da Groenlândia.

Não é um pequeno erro gráfico. É consequência matemática da projeção.

Entra em cena a Equal Earth

A alternativa promovida pela campanha é a Equal Earth, criada em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny.

Ela pertence à família das projeções equivalentes (equal-area). Isso significa que as proporções de área são preservadas: se uma região possui dez vezes a área de outra no planeta, essa relação também é mantida no mapa.

A projeção foi desenvolvida buscando combinar essa propriedade com uma aparência relativamente familiar dos continentes, inspirada na projeção Robinson.

Quando vemos o mundo dessa forma, algumas relações geográficas parecem estranhas inicialmente justamente porque passamos décadas olhando outras projeções.

A África cresce.

A Groenlândia encolhe.

Europa e Canadá deixam de dominar visualmente tanto espaço.

As áreas próximas ao Equador passam a ocupar uma parcela do mapa muito mais próxima da parcela que realmente ocupam na superfície terrestre.

Equal-Earth-Comparison-with-Mercator
Equal-Earth-Comparison-with-Mercator

Mas a Equal Earth também distorce o planeta

Esse ponto desaparece facilmente no debate político.

Equal Earth preserva área, não tudo.

Formas, ângulos, direções e distâncias sofrem distorções. A documentação do ArcGIS, por exemplo, observa alongamento norte-sul em regiões tropicais e de médias latitudes e compressão nessa direção próximo aos polos.

Portanto:

Mercator não é uma projeção ruim e Equal Earth não é uma projeção perfeita.

Elas simplesmente foram otimizadas para propriedades diferentes.

É exatamente assim que projeções cartográficas devem ser avaliadas.

Onde a ONU tem razão

Usar Mercator como mapa geral do mundo é difícil de defender tecnicamente quando o objetivo é comparar países, continentes ou fenômenos relacionados à área.

Imagine um mapa de:

  • desmatamento;
  • cobertura florestal;
  • agricultura;
  • uso do solo;
  • áreas protegidas;
  • queimadas;
  • biomas;
  • estoque de carbono.

Nesses casos, área não é apenas estética. Ela faz parte da informação transmitida.

Uma projeção equivalente pode ser muito mais apropriada. A própria documentação da Esri recomenda Equal Earth para mapas temáticos globais e análises nas quais áreas relativas precisam ser representadas corretamente.

Para comunicação geográfica global, portanto, abandonar Mercator como escolha automática faz bastante sentido.

Onde o argumento começa a exagerar

A campanha também possui uma dimensão política explícita.

A União Africana argumenta que representar sistematicamente a África menor do que ela realmente é influencia a percepção sobre a importância do continente e relaciona o uso histórico desses mapas ao legado colonial.

É uma discussão legítima.

Mas existe o risco de transformar uma questão cartográfica em uma falsa escolha entre um mapa “errado” e outro “verdadeiro”.

Equal Earth também é uma transformação matemática da superfície terrestre.

Se a prioridade for preservar direções ou ângulos locais, outra projeção poderá ser melhor. Se quisermos medir distâncias a partir de determinado ponto, provavelmente escolheremos outra. Para um mapa regional, uma projeção projetada especificamente para aquela região pode superar ambas.

A pergunta profissional nunca deveria ser:

Qual é a projeção correta?

E sim:

O que este mapa precisa preservar?

Por que os EUA votaram contra?

Os Estados Unidos foram o único país a votar contra porque consideraram que a resolução não tratava apenas de cartografia. Para Washington, o texto usava a discussão sobre projeções de mapas para reforçar argumentos políticos sobre colonialismo, desigualdade e representação global. Ou seja, a objeção americana não foi dizer que a Equal Earth é tecnicamente pior, mas sim rejeitar o enquadramento político dado à mudança.

E o Google Maps? Vai mudar?

Provavelmente não da maneira que algumas manchetes sugerem.

A resolução aprovada pela ONU não é vinculante. Ela não obriga governos, escolas ou empresas a abandonar Mercator.

Além disso, existe uma diferença importante entre um mapa-múndi para comunicação e um mapa interativo para navegação.

Grande parte da infraestrutura de mapas online utiliza Web Mercator (EPSG:3857). O CRS tornou-se extremamente conveniente para mapas web, inclusive pela facilidade de trabalhar com tiles e zoom contínuo. Ele continua sendo padrão em boa parte das bibliotecas e serviços de web mapping.

Trocar todo esse ecossistema por Equal Earth não seria apenas selecionar uma opção diferente num menu.

E, principalmente, não resolveria necessariamente um problema real.

Ao olhar uma rua, propriedade ou cidade em grande escala, a gigantesca distorção visual que Mercator apresenta perto dos polos em um mapa global deixa de ser a questão principal.

Para quem trabalha com GIS, há uma lição mais importante

A polêmica expõe um erro que vai muito além de mapas escolares: utilizar o CRS da visualização como se ele também fosse adequado para análise espacial.

Web Mercator é ótimo para mostrar muita coisa.

Isso não significa que seja adequado para medir tudo.

Calcular hectares, densidade, buffers ou outras grandezas diretamente numa projeção inadequada pode produzir resultados incorretos. Para análises de área, normalmente queremos uma projeção equivalente apropriada à extensão estudada ou métodos geodésicos.

Esse problema é particularmente relevante em GIS ambiental e florestal, onde a área frequentemente é o próprio resultado da análise.

Um polígono bonito sobre um basemap não garante uma medição correta.

Mercator vs. Equal Earth

CaracterísticaMercatorEqual Earth
Área relativaDistorce bastante em altas latitudesPreserva
Ângulos locaisPreservaDistorce
Formato dos continentesFamiliar, mas progressivamente ampliado em direção aos polosMais equilibrado, mas também distorcido
NavegaçãoExcelenteNão é seu objetivo
Mapas temáticos globaisGeralmente não é a melhor escolhaExcelente opção
Comparação visual de áreasRuimExcelente
Web mappingEcossistema extremamente consolidadoUso bem menor

A comparação mostra por que decretar um vencedor absoluto não faz muito sentido.

O que realmente muda depois da decisão da ONU?

No curto prazo, provavelmente pouco.

A resolução não apaga Mercator dos mapas nem estabelece Equal Earth como novo padrão obrigatório mundial.

Seu efeito mais provável será institucional.

A ONU incentiva governos, escolas, editoras, organizações internacionais e plataformas digitais a adotar progressivamente representações que preservem melhor as áreas relativas. Togo já anunciou intenção de atualizar materiais escolares e pretende discutir a adoção com outros países e empresas de tecnologia.

Se esse movimento ganhar escala, crianças daqui a alguns anos poderão crescer olhando para um mapa-múndi bastante diferente daquele que conhecemos.

Para profissionais de GIS, entretanto, talvez a maior contribuição dessa discussão seja outra.

Durante séculos usamos mapas não porque fossem geometricamente neutros, mas porque suas distorções eram úteis para determinado propósito.

Mercator resolveu brilhantemente um problema do século XVI.

Equal Earth resolve melhor alguns problemas de representação global do século XXI.

Nenhuma delas transforma uma esfera em um retângulo sem pagar algum preço.

E essa talvez seja a parte mais importante da história que as manchetes sobre o “novo mapa-múndi” deixam de contar.

Códigos:

ProjeçãoCódigo principalOutros códigos / identificadores comunsPROJ
Mercator (World Mercator)EPSG:3395+proj=merc
Web Mercator / Pseudo-MercatorEPSG:3857ESRI:102100; antigos: 900913, 102113, 3785+proj=merc
Equal Earth — MUNDO TODOEPSG:8857ESRI:54035+proj=eqearth +lon_0=0
Equal Earth — AmericasEPSG:8858ESRI:54036+proj=eqearth +lon_0=-90
Equal Earth — Asia-PacificEPSG:8859ESRI:54037+proj=eqearth +lon_0=150
Robinsonsem EPSG CRS oficialESRI:54030+proj=robin +lon_0=0

Fontes

  • Assembleia-Geral das Nações Unidas — resolução Correct the Map, setembro de 2026.
  • African Union Commission — comunicado sobre a adoção da resolução, 4 de setembro de 2026.
  • Šavrič, B.; Patterson, T.; Jenny, B. — The Equal Earth Map Projection, International Journal of Geographical Information Science.
  • International Cartographic Association — Choosing World Map Projections.
  • Esri / ArcGIS Pro — documentação sobre Equal Earth e escolha de projeções cartográficas.
  • Reuters — cobertura da votação da ONU, 4 de setembro de 2026.

Gostou? Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *